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“Uma viagem que nos obriga a encarar feridas” A leitura de Benone Mateus sobre Malero Jeque

Benone Mateus apresenta "Uma Viagem por Outras Vidas" | Blog de Malero Jeque
✧ APRESENTAÇÃO CRÍTICA ✧

“Uma viagem que nos obriga a encarar feridas”
A leitura de Benone Mateus sobre Malero Jeque

Discurso de lançamento na UCM – Quelimane | 18 de Novembro de 2025
🎙️ Apresentador: Benone Mateus (académico e crítico literário) 📖 Obra: “Uma Viagem por Outras Vidas” 📍 Auditório da Universidade Católica de Moçambique

“Recebi com sincera honra – e confesso, com alguma surpresa – o convite para apresentar este livro de contos de Malero Jeque.” Foi assim que o académico Benone Mateus iniciou o seu discurso durante a sessão de lançamento de Uma Viagem por Outras Vidas, na Universidade Católica de Moçambique, perante uma plateia atenta de estudantes, professores e amantes da literatura. A surpresa, explicou, vem do facto de Malero Jeque ser “um daqueles escritores que não escreve para impressionar: escreve para despertar. E quem desperta consciências escolhe interlocutores à altura.”

Com 87 páginas distribuídas por nove contos, a colectânea – segundo Mateus – não foi escrita para descansar. Pelo contrário: “Malero obriga-nos a caminhar por terrenos que preferimos evitar no quotidiano”. Violência doméstica, violência sexual, alcoolismo, agressões contra menores, venda de ilusões sociais, desprezo pela mulher, vingança e justiça pelas próprias mãos atravessam o tecido social moçambicano sem véus. “É uma literatura que não põe véu na ferida: mostra-a, expõe-na, obriga-nos a encará-la.”

“Malero não denuncia de fora; denuncia de dentro. Fala como quem viveu, viu, observou e, sobretudo, como quem se recusa a aceitar que estas realidades se tornem normalidade.”

Espelhos que não lisonjeiam

Ao longo da sua arguição, Benone Mateus sublinhou a força narrativa de Jeque: cada personagem funciona como um espelho – daqueles que não lisonjeiam. “Malero escreve com firmeza, mas com humanidade. Mostra-nos como, por detrás de cada gesto violento, há uma sociedade inteira a empurrar, a calar, a normalizar.” O apresentador enquadrou a obra num diálogo com grandes referências: se Kwame Anthony Appiah nos falou da relação entre identidade e cultura, e se Paulina Chiziane expôs a arquitectura do patriarcado, Malero Jeque acrescenta “a responsabilidade individual que cada um de nós carrega dentro de uma estrutura colectiva doente”.

Longe de ser pessimista, a obra é, nas palavras de Mateus, “um alerta”. E ecoando Severino Ngoenha, um exercício de “projectar o futuro através da consciência do presente”. O crítico identificou ainda ecos de outras vozes do espaço lusófono: Paulina Chiziane pela crítica frontal às desigualdades de género; Mia Couto pelo olhar poético sobre realidades duras; Pepetela pelo retrato de comunidades oscilando entre esperança e desencanto; e Conceição Evaristo, que escreve com a dor e a resistência do quotidiano. “Malero Jeque não copia nenhum deles, mas partilha com todos a coragem de escrever para incomodar com propósito.”

🌟 O que disse Benone Mateus sobre o estilo do autor: “A brevidade de Malero é cirúrgica: ele entra, mostra a ferida e sai – deixando-nos a pensar. Aqui, a brevidade intensifica a mensagem, como nos mestres latino‑americanos e africanos que transformam poucas páginas em abalos interiores.”

Um convite ético, não apenas literário

Na parte final do discurso, o apresentador dirigiu-se directamente ao público: “O meu papel aqui não é esgotar o livro, mas justificar, com toda a honestidade, por que não devem sair desta sala sem o adquirir.” E elencou razões: porque é um bom livro; porque estas histórias não são invenções distantes, mas reflexos vivos do que acontece nos bairros e nas comunidades; porque este livro, para além de literário, é um convite ético. “Viajem por outras vidas para mudarmos a nossa.”

Com a autoridade humilde de quem já fez essa viagem, Benone Mateus concluiu: “Não saia daqui sem se deliciar desta obra. Leve-a consigo como quem leva um espelho. Nas suas páginas, encontrará não apenas personagens, mas consciências. Não apenas histórias, mas possibilidades de mudança. Não apenas dor, mas também esperança.”

A comoção na sala foi palpável. O autor, Malero Jeque, visivelmente emocionado, agradeceu a leitura atenta e corajosa, reafirmando o compromisso de continuar a escrever com a verdade como matéria-prima. O lançamento, co-organizado pelo Clube de Leitura de Quelimane e pela UCM, transformou-se num verdadeiro laboratório de reflexão crítica – exatamente aquilo que a literatura moçambicana contemporânea mais precisa.

DISCURSO ÍNTEGRO (EXCERTOS)

Benone Mateus
Apresentador crítico

Académico, investigador literário e conhecedor da prosa moçambicana. A sua leitura de Uma Viagem por Outras Vidas foi elogiada pelo autor como “justa e cirúrgica, não podia ser melhor”.

📚 Referências citadas

Paulina Chiziane Mia Couto Pepetela Conceição Evaristo Kwame A. Appiah Severino Ngoenha
“Viajem por outras vidas para mudarmos a nossa.”
— Benone Mateus, apelo final
💡 Conceito-chave
“Literatura que não põe véu na ferida”: Malero Jeque expõe realidades sociais duras sem artifícios, transformando a página num tribunal da consciência colectiva.

Eco na sala

Seguiu-se a sessão de perguntas sobre o papel ético do escritor.

🎟️ O livro está disponível nas livraria um pouco por todo o país.

#UmaViagemPorOutrasVidas #MaleroJeque #BenoneMateus

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