
“Uma Viagem por Outras Vidas”: apresentadora desvenda os contos de Malero Jeque e questiona: “Por que razão os seus escritos envolvem sexo?”
O lançamento de
“Uma Viagem por Outras Vidas”, primeiro livro individual de Malero Jeque, foi mais do que uma cerimónia de apresentação. Foi também um momento de profunda análise literária, cortesia da professora
Carla Karagianis, que, com humor, erudição e frontalidade, conduziu o público pelos nove contos da obra.
“Os hoje” de outras vidas
A professora começou por agradecer ao “jovem ousado e destemido escritor” pelo convite para apresentar o livro, confessando ter ficado admirada pela escolha, mas concluindo que “o importante é ter sido escolhida”.
Num exercício curioso, Carla Karagianis revelou ter pesquisado o significado do nome Malero em Ci-sena:
“Malero é uma palavra derivada por prefixação – o prefixo ‘Ma’ pluraliza a palavra ‘lero’ (hoje). Uma tradução literal para português fica ‘Os hoje’.”
Aliando o nome ao título “Uma Viagem por Outras Vidas”, a apresentadora propôs uma leitura analógica: “Os hoje de outras vidas” – ou seja, um olhar sobre a vida social, comunitária e dos que nos rodeiam, incluindo a nossa própria.
Nove contos, nove mergulhos na condição humana
A professora descreveu a obra como um “pequeno livro de bolso” que se pode levar para todo o lado – no autocarro, na chapa, no trabalho ou em casa. E passou em revista cada um dos nove contos, destacando:
1. “Há justiça em Xilembene” – Um poderoso humilha e viola uma família, mas acaba pobre, doente e julgado. “A justiça dos homens tarda, mas chega.”
2. “Mussiwa e o ciclone de Deus” – A descrença juvenil confrontada com a voz de um homem branco que diz: “O ciclone não veio de Deus, veio de nós, dos nossos erros, da nossa ganância.”
3. “O ventre que chorou” – Relação incestuosa entre irmãos gémeos, que culmina em suicídio da mãe e remorso eterno.
4. “Amargas tentações, desejos proibidos” – Um pai encontra consolo numa jovem; o filho cai na tentação da madrasta. “A carne é fraca.”
5. “Manuela e o lar que nunca foi seu” – A necessidade de os jovens terem a sua própria casa. “Quem casa, quer casa!”
6. “Filho da guerra” – As sequelas da guerra civil: orfandade, mendicidade, degradação social.
7. “Meu pai que me engravidou” – Controlo parental excessivo que se volta contra o próprio feiticeiro.
8. “Herdeiros do caos” – Álcool, traição, sexo, descaso familiar e morte.
9. “Luísa sob o tecto do destino” – Violação sexual pela padrasto, um drama que correntemente se vê na TV.
“Uma inclinação para narrativas lascivas, sensuais ou eróticas”
Carla Karagianis não escondeu o tom predominante na obra:
“Malero mostra uma inclinação para narrativas lascivas, sensuais e ligadas ao sexo não consentido ou violação – algo que hoje preenche as manchetes dos jornais.”
E, no final, lançou uma pergunta directa ao autor, que ficou no ar para o público:Por que razão os seus escritos envolvem sexo?”
Um convite à leitura e à reflexão
A professora concluiu incentivando todos os presentes a adquirir a obra, não apenas pelo prazer da leitura, mas porque “podem rever-se ou rever situações que tenham acontecido convosco ou com pessoas que vos rodeiam”.
O evento, que contou com música ao vivo, poesia falada e leitura de excertos, terminou com casa cheia e a sensação de que Malero Jeque acaba de dar um passo corajoso – e muito promissor – no mundo literário moçambicano.
“Uma Viagem por Outras Vidas” está disponível na Beira, através da Mapeta Editora e no Centro Cultural Português.
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